Sunday, November 01, 2009

O lado positivo

Depois dos 2 golos em Braga, o Benfica tem a consolação de saber que já não vai sofrer mais golos até ao fim do campeonato: Já chegou aos 7...

Wednesday, October 21, 2009

Angulo e a boa gestão desportiva

Num almoço domingueiro, daqueles que se esticam até bem depois da hora do lanche, dizia-me um familiar, pessoa ilustre do mundo da bola, tido na família como ‘não lagarto’, o que já lhe valeu peúgas brancas e lenços de pano no Natal, que o Sporting era ‘injustamente incompreendido’, apesar da sua política ser a mais realista dos 3 grandes e que estava a pagar, publicamente, pela sua seriedade e responsabilidade.

Devo, em algum momento, ter rebolado os olhos. Mas agora, com a devida distância, não posso deixar de me surpreender pela mensagem dos dirigentes do Sporting ter conseguido passar: O actual momento da equipa é um mal necessário. Como se tudo estivesse previsto, como se nunca se tivesse dito que este ano, como em anos anteriores, teríamos que ser campeões desse por onde desse. Ou seja, a história dos orçamentos, as armas desiguais, a responsabilidade da gestão, a preocupação pelo futuro. E que tal se se fossem todos encher de merda?

Este post está na gaveta desde o jogo com o Belenenses, em reflexão. Passadas 2 semanas e o jogo para a taça, a minha opinião mantêm-se: O problema não é o modelo desportivo-financeiro que o Sporting decidiu adoptar. O problema é a falta de capacidade para aplicar o presente modelo desportivo-financeiro.

Em teoria, não me incomoda este modelo: Criar e desenvolver activos (jogadores) que possam gerar mais-valias desportivas e financeiras a partir da sua valorização. Este modelo considera 3 pressupostos fundamentais:
1. A utilização obrigatória de valores da formação na equipa sénior;
2. Complementaridade de jovens valores com activos experientes de forma a manter a competitividade da equipa;
3. A rentabilização financeira dos activos, em particular da formação;

Ora este modelo terá então que assentar, para o seu sucesso, no sucesso desportivo. Faço um desenho: Sem sucesso desportivo, os jogadores não se valorizam, não se valorizam valem menos, valendo menos não há dinheiro, não há dinheiro o passivo cresce.

Com a entrada do Paulo Bento consolidou-se definitivamente um dos pressupostos principais: A subida à primeira equipa de valores da formação, aqueles que serão prioritariamente principais activos futuros. Há que dar-lhe mérito: Poucos treinadores seriam capazes de assumir este pressuposto como se fosse o mais importante de toda a política do clube. E aqui está um dos erros do Sporting: a aposta em jovens jogadores deve ser tão importante quanto a capacidade de conseguir dar consistência, competitividade e qualidade à equipa e esta qualidade, é praticamente impossível de existir sem o segundo pressuposto.

Ora, para que este segundo pressuposto esteja garantido é necessário o investimento em jogadores que sejam capazes de dar maturidade e proporcionar rendimento desportivo à equipa. Sem discutir se o investimento pode/ deve ou não ser maior, a verdade é que, tendo em vista o sucesso do modelo desportivo, se não existe capital para realizar este investimento a obrigatoriedade de eficácia do investimento efectuado é ainda maior. E aqui está o segundo erro e talvez ainda mais importante que o primeiro: A falta de recursos obriga a um maior rigor na sua aplicação. No Sporting actual, não existe margem para falhas e cada aquisição tem que responder a uma identificação clara de necessidades da equipa e a uma eficácia absoluta no rendimento desportivo, a curto prazo.

Vamos lá então ver o rendimento individual dos investimentos do Sporting nos últimos 3 anos (Apesar de menor risco, considero o ‘empréstimo’ um investimento uma vez que supõem a utilização de recursos financeiros, seja para contratação, salários ou prémios):

Guarda- Redes
Stojkovic
Ricardo Baptista

Defesas
Pedro Silva
Marian Had
Gladstone
Leandro Grimi
Caneira

Médios
Vukcevic
Izmailov
Celsinho
Rochemback
Matias Fernandez
Ângulo

Avançados
Purovic
Derlei
Rodrigo Tiuí
Hélder Postiga
Caicedo

Analisando os ‘reforços’ de origem externa dos últimos 3 anos, pode-se considerar que apenas 3 de 18 (!) vieram trazer uma mais-valia à equipa: Derlei, Izmailov e Vukcevic (e neste caso, com rendimento variável).

Naturalmente que nem todos foram contratados para fazer a diferença e para desempenhar um papel determinante na equipa. Mas à excepção de Ricardo Baptista e Celsinho, penso que posso dizer que todos foram contratados com a intenção de se integrarem rapidamente na equipa e constituírem uma opção válida para o treinador. O resultado é o que se sabe (dando benefício da dúvida a Fernandez e Caicedo. Ao Ângulo não vale a pena): Tirando o caso do Stojkovic, que é um problema disciplinar, todos os outros se revelaram erros grosseiros de casting, com rendimento bastante inferior ao que deveriam ter tido na equipa. Incluindo Postiga, tendo em conta o seu custo. E ainda falta pagar 2,5 M €…

Apesar de inferior a FC Porto e Benfica, considerar a falta de investimento do Sporting como desculpa para a falta de resultados, é um engano. Acredito que com os poucos recursos que existem é possível fazer melhor. É preciso para isso mais eficácia nas escolhas, um conhecimento e influência no mercado que talvez seja insuficiente e, possivelmente, uma maior independência de empresários que injectam as suas ‘vedetas’ com o impacto desportivo que se conhece.

Mas os disparates não se resumem à aquisição de jogadores. Reportando-nos ao mesmo período de 3 anos, concluímos que a mesma inépcia existe para a colocação/ venda de jogadores: Stojkovic, Tiuí, Celsinho, Romagnoli, Carlos Martins e Varela são apenas exemplos, que não se podem explicar pela suposta desvalorização dos jogadores perante a falta de resultados desportivos, de uma inépcia constrangedora na relação com o mercado. E falta ainda explicar se o Braga pagou a totalidade da indemnização de Tiago Pinto.

No entanto, a rentabilização financeira dos activos, o terceiro pressuposto, é efectivamente uma consequência directa do sucesso desportivo, que simultaneamente, permite a geração de mais-valias financeiras directas. Ou seja, se um jogador permite valorizar a equipa, a equipa valoriza individualmente os jogadores.

O caso do FC Porto é paradigmático: Independentemente da capacidade negocial que possam ou não ter, seria possível ao Porto rentabilizar os seus jogadores da mesma forma sem vitórias?

Ganhar é hoje fundamental para a reabilitação desportiva, financeira e anímica do Sporting. Justificar a falta de resultados com questões orçamentais, em nome do rigor financeiro, é apenas desresponsabilização. Como se o rigor financeiro fosse incompatível com o sucesso desportivo. O Sporting, hoje, é um problema de competência e eficácia da gestão desportiva, com impactos sérios e imediatos a nível financeiro. E se o modelo não me parece estar, de forma alguma, esgotado, é necessário rever rapidamente os seus mecanismos de implementação. Não quero ver o Moutinho sair pelo preço que custou um Grimi, nem substituído por um Ângulo…

Wednesday, October 07, 2009

Olhò sintoma fresquinho!

Digamo-lo com frontalidade: o homem até nem começou mal. Ao deparar-me com o título “Ser sportinguista é freudiano”, e pesando a ambiguidade da afirmação, fui tentado a pensar “Salve! O Sousa Tavares deixou o uísque!”. Não sei se deixou ou não. Mas desconfio que não.

O texto de hoje prima pela coerência. Não do texto em si. A coerência de MST – ao longo dos anos nunca foi menos burro, menos rigoroso, menos parcial (também não se lhe pedia, evidentemente) ou menos parvo. A nível da coerência, não desaponta, portanto.

(Entretanto, acabei por não perceber o que é “ser freudiano”... a minha humilde interpretação é a seguinte: MST queria dizer que ser sportinguista é ter um distúrbio de personalidade passível de ser explicado por Freud. Mas adiante. Teria muito mais graça se “ser (...) freudiano” significasse, de facto, ser defensor de Freud! Imaginem as analogias possíveis se “defender o sportém” equivalesse a “ser discípulo do doutor Zigmund”. Meu deus, todo um novo universo surgiria perante mim... Mas afinal foi apenas uma expressão da banalidade intelectual de MST, ele próprio.)

Saltando a parte referente aos excursionistas, ao longo da qual Tavares esperneia convulsivamente, aqui e ali, contra o Benfica, chegamos ao segundo parágrafo. E é extraordinário – quem, como eu, lê o Tavares sabe que isto é verdadíssima! – observar a decadência, passe o eufemismo, literária e pensante do autor da miserável prosa. De linha para linha, juro, sinto o aroma do irish whiskey cada vez mais presente. Claro, isto tem maus resultados.

Assim, chega-se onde? Lá está, ao parágrafo do Benfica. E é aqui que a comédia ganha nova vida. MST fala do Benfica em Atenas. Ora, como MST leu o texto “Euforias”, não quis, como se compreende, ser incluído em qualquer dos grupos de doentes a que aludi. Ou seja, MST ficou vazio de argumentos. Ou seja, teve de recorrer à sua arma mais treinada e letal: a ignorância.

Miguel Sousa Tavares pegou no suposto argumento do ranking da UEFA para dar a bicada do costume. Diz ele assim “Se olharmos a relação entre os pontos ganhos na UEFA e as participações havidas, o Benfica é de longe o maior beneficiário... do esforço alheio”. Ele diz mais coisas, mas eu agora também tenho meia-dúzia para lhe dizer: Miguel Sousa Tavares, o doutor, para além de ignorante, é mentiroso e estúpido. E não o digo só porque estou em altas de Bushmills, entenda. Não. Eu consigo mesmo argumentar recorrendo a factos.

Vejamos, o Benfica é o 19.º classificado do ranking da UEFA, com 56.1924 pontos. O FC Porto, melhor ranking português, é 17.º (uma diferença estrondosa, como pode ver-se), com 62.1924. O Braga (43.º, 38.1924 pontos) e o Sporting (29.º, 48.1924) que também são mencionados no texto pelo soutor, estão, como pode constatar, bastante atrás do Benfica. Aproveito para acrescentar que se Portugal ocupa o 9.º lugar do ranking da UEFA (para o qual me borrifo – não, não me enche de orgulho ter lá 7 equipas para 4 serem despachadas à primeira pré-eliminatória) é, em boa parte, graças aos 34.1166 angariados pelo Benfica entre 2005 e 2007, bem como aos 17.3570 amealhados pelo folcuporto o ano passado.*

Agora que me expliquei num português substancialmente mais claro e fluente que o seu, recorrendo a dados e factos concretos em vez de manias ou delírios, gostaria de terminar o texto com rigor. É por isso que não lhe traço um diagnóstico imediatamente – não é fácil: junta-se paranóia com alcoolismo e torna-se complicado chegar a uma conclusão. Além disso, não sei se não haverá em si algo que Freud pudesse também explicar. Afinal de contas, há fixações que são claramente do foro psicanalítico.

(* estes dados podem ser confirmados aqui: http://www.zerozero.pt/ranking_uefa.php?por_pais=0&epoca=139&coef=0)

Friday, October 02, 2009

Euforias

Que delícia! É sem surpresa mas com grande regozijo que os benfiquistas assistem hoje àquilo a que os pobres usam chamar de “euforia esquizofrénica”. Não pretendo aqui corrigir os que o fazem, muito menos aconselhá-los a uma leitura atenta sobre a ciclotimia. A nomenclatura importa pouco nestas questões, o que interessa é mesmo a ideia.

E a ideia com que hoje fico é que, de facto, os adversários do Benfica estão mesmo com medo – e não se confunda medo com pânico. Eu disse “medo”. A quantidade de posts e comentários que se podem ler um pouco por toda a blogosfera acerca da primeira derrota significativa (a de Poltava foi um jogo-treino) do Benfica esta época ilustra bem o estado de espírito das duas unidades de internamento: “o Benfica não presta, eh eh, iupi!, estamos tão contentes”.

Que os maluquinhos excursionistas se comportem deste modo, eu até entendo. Está-lhes no sangue. E nas vozes que, lá dentro daquelas cabeças, lhes sussurram “odeia o Benfica, tu odeia o Benfica, filho, nada no mundo importa mais do que odiar o Benfica, odeia, odeia odeia odeia odeia odeia...”. Acresce que ontem a turminha conseguiu uma assombrosa exibição e uma retumbante vitória, o que, naturalmente, empola as emoções.

Já dos pacientes da outra instituição eu estranho um pouco uma reacção tão empolgada. Não é costume. Dantes, quando o Benfica perdia, limitavam-se a sorrir ou, em finais de época, a ignorar e a preparar a pré-época. Mas hoje é diferente. E, deixem-me que vos esclareça, não somos nós, benfiquistas, a acharmo-nos importantes. Não, foi um jogo normal, fraquito, perdêmo-lo. Acontece. Agora, que vocês nos dão uma importância desmedida (para não dizer “do caralho”), isso é inegável. Até um tropeção vira motivo de festejo.

Não vou aqui traçar diagnósticos, decerto tendes quem vos acompanhe. Mas aconselho prudência, já que, se do lado benfiquista a serotonina está nos níveis normais, já estes dois grupos parecem inspirar necessidade de administração de lítio. É que à hipomania segue-se, segundo os vossos sintomas, a distimia. Eu, no vosso lugar, não interrompia a terapia.

Wednesday, September 30, 2009

O momento

O que eu queria dizer é coisa simples e não pretendo tirar muito tempo a quem lê. Hoje em dia, há muito que ler por aí e, quando se fala de bola, andamos todos a dizer o mesmo. Mas quanto a isso de o Benfica estar “muitíssimo bem”, “muito forte” ou mesmo “demolidor”, peço aos adeptos adversários que nos concedam o direito à felicidade: depois de tanto ano de mediocridade, uma pessoa vê-se na disposição de gostar, de festejar, de desfrutar destes momentos felizes. Porque, embora possam parecê-lo, os benfiquistas não são todos extremamente parvos. Existe uma diferença entre uma fezada depois de 3 vitórias em que se diz “isto, este ano é que é” e a constatação daquilo que é óbvio, claro e, sobretudo, entusiasmante. Quando se vêem adversários invariavelmente encostados às cordas, obrigados a recorrer à falta (às vezes, à violência) para travar o Benfica e a contar os minutos para que o jogo acabe antes da goleada, é invetitável uma pessoa – benfiquista ou não – concluir que “aqueles gajos estão a jogar que se fartam”.

Mas não era isso que eu queria dizer, isso já foi dito e redito e até os adversários o reconhecem, uma vez que é factual, logo, indesmentível – não há duas maneiras de ler uma verdade quando a verdade está dita com clareza e sem figuras de estilo. O que me importa é que amanhã é um dia importante porque vai acontecer um jogo importante.

Não, não se trata de defrontar um tubarão europeu, longe disso. O AEK é da segunda liga europeia. Tal como, supostamente, o é o Benfica de hoje. E é aí que reside a importância deste jogo: o “momento benfiquista” será apenas isso e, na prática, a equipa é do mesmo nível do AEK?; ou o Benfica vai conseguir demonstrar frente aos gregos o que demonstra por cá? Conseguiremos transformar o AEK num Leixões? Ou o jogo será uma espécie de Guimarães – Nacional da Europa?

Amanhã será o primeiro “jogo-comprovativo” do ano – e um sinal mais claro daquilo que poderemos esperar verdadeiramente do Benfica para o resto da época. Portanto, se Jesus sair da Grécia com 3 pontos resultantes de uma vitória sofrida num jogo equilibrado, será sempre bom. Mas significará que, calma meus amigos, o trabalho só está começado. Avaliando por alto o que foi feito até agora, não espero menos do que o que fizemos contra o BATE Borisov. Não me desiludam.

Wednesday, September 02, 2009

De língua esticadinha


Na já famosa linha de capas absurdas, o lambe-cus favorito dos benfiquistas volta a brilhar com mais uma capa inspirada.

Confesso que, enquanto não-benfiquista, sinto-me um pouco intimidado pela força e simbolismo da fotografia. Mas depois recordo-me que o Exterminador acaba derretido numa fundição. Mas isso não importa nada…

Só não percebo é porque é que usaram a fotografia do Vítor Gomes, dos Gatos Negros…

Tuesday, September 01, 2009

Aquele golo sofrido...

O jogo de ontem, na Luz, deixou muitas coisas atravessadas. Nomeadamente, o golo do Vitória, na garganta do Jorge Jesus (e na minha, já agora); e os outros oito do Benfica, em cerca de 4 milhões de gargantas, engasgadas por esse país fora. Mas também deixou coisas escorreitas, direitinhas, claras.

Sou da despudorada opinião de que, na hora das (boas) vitórias, o momento é de festejar. E, tomando as palavras de Bolöni, a esta hora “je suis trés content”. Porém, vou refrear os festejos e o contentamento, não vão certos leitores apelidar esta vitória de “jogo de iniciados” ou algo igualmente deprimente e ressabiado (ou verdadeiro...). Vou antes partilhar – com quem estiver na disposição de ler – a minha análise a este Benfica, deste momento.

Há que começar por dizer que gosto disto. E estou a quebrar o meu auto-compromisso de tocar no assunto e de o dizer abertamente. Mas não há como contornar: o Benfica deste início de época dá-me gozo. Não sei se vai durar e já sei que a época é longa e que as contas se fazem no fim e bla bla bla bla o folcuporto é que é o máiór e a gente, no fundo, só anda aqui a animar metade da nação enquanto não chega o Natal e a passagem de ano. Já sei isso tudo, escusam de mexer um dedo para repetir essas ideias na caixa de comentários – aliás, a ideia nem foi inventada pelos portistas (toda a gente sabia, dantes, que o futebol eram onze para cada lado, com uma bola redonda, e, no fim, ganhava a Alemanha...).

Mas gosto disto. Gosto de ver o Benfica fazer 8 golos num jogo, para começar. Porque a moda das “goleadas” de 4 a 1 só começou porque o Benfica deixou de as fazer nos moldes dos anos 60 e 70, com 7, 8 e 9 golos – quando não mais. E é bom ver que as equipas ainda podem jogar à bola por prazer – lá está, como a gente jogava nos iniciados. E se ainda há tempo para jogar, então ainda dá tempo para se fazer mais um. E foi isso que eu vi ontem. Jogadores que jogam o que sabem e que o fazem porque gostam. Vocês fazem ideia de há quanto tempo eu não via isso no Benfica? Fazem ideia de há quantos anos eu vejo jogadores – alguns deles de bom nível – a jogar pelo Benfica como quem trabalha num escritório? Com tédio. Com má vontade. No estrito cumprimento das funções. Por mais eficazes que o fossem... não posso dizer que me enchessem as medidas. O meu sonho era jogar no Benfica, caramba! Respeitem o meu sonho.

Não posso dizer que “gosto do Jorge Jesus”. Para mim, Jesus sempre foi uma personagem caricata com métodos meio tresloucados que explicava os seus êxitos surpreendentes com expressões dignas de nota – e de sorrisos, no mínimo. E pronto, nunca tinha imaginado Jesus a treinar o Benfica. Snobeira minha, talvez. Mas ainda me custa aceitar a ideia de ter um treinador que fala pior português do que o Souness. Agora... aqui fica o meu braço, quem quiser que o torça: a equipa joga que é um regalo. Eles pressionam quando não têm a bola, eles lutam por ela, eles trocam-na, correm, passam, cruzam, brincam, rematam... Às vezes até pode dar-se o caso de não ganharem. Mas isso é outra conversa (as contas, vá lá, fazêmo-las só no fim). Mas dão gozo de ver.

Posso dizer que gosto de vários jogadores. Por exemplo, este Aimar, que fomos buscar nesta prá-época, pendurado nos calções do outro pequenino, é uma maravilha de jogador. É muito melhor do que o outro que a gente tinha comprado o ano passado. Para o ano, espero que a gente volte ao mercado para adquirir ainda outro Aimar – será candidato à bola de ouro da FIFA. E o tal pequenino? Que pezinhos, meus amigos. E que entrega e inteligência naquela frente de ataque. Mas quem mais me tem encantado tem sido aquele que comanda tudo, lá atrás: Xaví Garcia, esse mesmo. Uma parede que abre os braços e faz recuar 11 dos deles, para além de fazer avançar 7 dos nossos. É obra. Melhor que isto só aquele senhor da Bíblia, que abria os braços e, com o gesto, abria também as águas. Não se tratando de pólo aquático, a intervenção de Xaví parece-me adequadíssima. Para além deste espanhol, tão desvalorizado pelo RM Galaxy, tem-me encantado também aquele franzino, carote na aparência, franzino na figura, mas imponente no jogo jogado. Ramires: ele corta, corre, distribui, dobra os colegas, surge a rematar e, se o guarda-redes não segura, estou certo de que será o primeiro a fazer a recarga.

E não me alongo mais com isto. Tão trés content que je suis, já devo estar a meter nojinho ao adversário. E aos do sportém também. As minhas desculpas. Foi pena, realmente, aquele golo sofrido...

Friday, August 21, 2009

Qual assunto?

Tem sido um início de época difícil de suportar. Já a pré-época foi o que foi... Uma pessoa quer falar de bola mas a conversa corta-se logo com um determinado “ah, então e aquilo... viste o Bolt?”, seguido da piscadela de olho compincha. "Se o vi? Nem deu tempo...". Benfiquista que é benfiquista sabe perfeitamente que com isto dos enguiços não se brinca... O melhor é não tocar no assunto. Fingir que não se passa nada. Um gajo sorri, anda com confiança. Mas o assunto fica só aqui entre nós, como numa irmandade secreta. “Então, tudo bem?”, sorrisinho, mais uma piscadela de olho, “tudo em ordem” e falamos das legislativas ou lá o que é isso. Diz que é democracia. Pero no lo creo. Que tal as férias e outros assuntos que ocupam as páginas finais do Record. Se se dá o caso azarado de alguém lançar um tímido “O Porto não está mau...”, haverá logo outro alguém que atalhará com um imponente “epá, e aquela treta em Albufeira...? diz que o Figo é que costuma ir para lá...” e a seguir, faz-se um arrependido silêncio. Mencionar a palavra “Figo” pode fazer com que se toque no assunto. E a gente não quer isso. Benfiquista que é benfiquista está ralado é com a Naide, que é lagarta e são-tomense mas pronto, a gente gosta dela na mesma... Nem há outro assunto.

Wednesday, August 19, 2009

Uma terça-feira à noite, no café do Chaves

- ‘Ehp, o problema do Sporting é a branca’, atira o Chaves ainda a olhar para a televisão, com o cotovelo vincado no balcão e a face enfiada no punho até a bochecha lhe tapar o olho.


- ‘Ãh? A branca? Mas qual branca?’, respondo-lhe eu, com uma linha (a subtileza esmagadora das palavras) de esperança que o homem me surpreendesse e tivesse ali algum boato para nos entreter.


- ‘Qual branca? Qual branca? Aquela que lhes passa pela cabeça, porra!’, respondeu, retirando a cabeça da mão para a poder abrir num gesto que subentendia esclarecimento.


- ‘Epá, mas de quem? Na sei nada disso!’, inquiro, cada vez mais interessado.


- ‘Porra atão na vês?’, disse, já direito atrás do balcão e a indicar a televisão com a cabeça. ‘Do Polga, do Peido Silva, do Vukcevic, do Abel quando joga e de outros quando calha. Achas normal que na façam um joguinho sem lhes parar o cérebro pelo menos uma vez?’


- ‘AaaH’, a linha de esperança de ter ali um boato saboroso era realmente fininha. ‘Essa branca! Ah, pois, não, na é normal’.


- ‘E se fosse só neste jogo, ainda se desculpava, mas na há jogo que não enterrem a sério. Se fores a ver, nesta época, os golos que temos sofrido foram quase só por falhas individuais nossas, por andarmos a dormir ou por desmazelo. E durante o jogo há mais uma série delas que mesmo que na matem, irritam que se farta e metem-nos o coração nas mãos.’


- ‘Já no ano passado o Polga, volta e meia, enterrava. Este ano na parece melhorar. E o Abel sempre teve problemas na ligação entre os neurónios, dá curto-circuito, sabes. Sobre um gajo a quem chamo Peido Silva, não falo. Agora, o Vuk, acho que tem desculpa.’


- ‘Qual desculpa, homem, qual desculpa?’, responde o Chaves, agitando as mãos no ar. Fiquei com um bocadinho de medo, confesso. ‘Primeiro desvia as atenções da punhada que o italiano deu no levezinho e ainda ganha um amarelo, por parvo. Depois, arma-se em Ronaldo pra mostrar a peitaça à malta. Eu quero lá ver as maminhas do Vukcevic! Quero é que jogue á bola e acabe o jogo’.


- ‘Epá, mas é a maneira de o homem jogar. É emotivo, dedica-se àquilo e às vezes perde as estribeiras. Mas depois é por ter este carácter que luta tanto e que empurra a equipa para a frente. É o reverso da medalha…’


- ‘Ora porra’. E o pano encardido de limpar os copos já batia no balcão. ‘Para gajos burros a jogar à bola já na bastam os 2 laterais direitos? Atão o homem na é capaz de manter a fibra toda e pensar um bocadinho ao mesmo tempo? Já na digo pensar muito. Só o suficiente para na tirar a camisola quando já tem um amarelo. A partir de agora vou passar os jogos a olhar prás mãos deles para ver se têm todos os polegares oponíveis… Olha que já desconfio!’.


- ‘Olha, eu se fosse jogador da bola era capaz de fazer o mesmo que o Vuk. Batiam num colega meu, levavam logo na boca. A não ser que fosse o Peido Silva. Aí, juntava-me ao outro pra bater no Peido Silva. Se eu conseguisse marcar um golo importante num jogo em que estivéssemos a ser roubados, super pressionados e com toda a gente nas semanas anteriores a falar mal de nós, também era capaz de reagir de uma maneira emotiva e esquecer que já tinha amarelo’, respondi-lhe eu quando... TRASH!!


- ‘Pois, mas isso és tu que nem és capaz de agarrar numa merda duma mini! Já é a 3ª que deixas cair, porra. E esta vais limpá-la tu que já tou farto. Toma o pano, anda. E podes usar os pés, que já vi que os teus polegares são como os dos jogadores do Sporting...'

Wednesday, August 05, 2009

Isto vai correr bem este ano, vai…

A melhor forma de ilustrar o patético jogo que o Sporting fez hoje contra aqueles holandeses sofríveis foi o golo: No último minuto dos descontos, por auto-golo e com meia assistência do Rui Patrício. Isto sim, faz-me corar de vergonha.

Pior, só se ganhassem à pedrada…

Thursday, July 30, 2009

Boas Festas!

Se o jogo de ontem serviu para alguma coisa, foi para me empurrar para os centros comerciais para comprar os presentes. Passo pelo supermercado e compro umas postas de bacalhau, daquele a sério, grossinho e que se separa em lascas depois de cozido. Com uma couve, umas batatinhas e uns farripos de cebola por cima, fica daqui, ó.

O Sr. César do talho arranja-me um peru caseirinho, de uma senhora em Alenquer que os cria com hortaliça.

Hoje ainda monto a árvore e o presépio. E o fim-de-semana passo-o a fazer filhozes, rabanadas e um ou outro bolinho para a consoada.

Porque parece que este ano o sacana do Natal é mais cedo…

Wednesday, July 08, 2009

Um dia bom

Os dias bons nem sempre são feitos de coisas grandiosas, de acontecimentos de estrondo, de pedidos de casamento, nascimentos de filhos, vitórias em campeonatos ou vendas de Lucho González. Por vezes, são coisas singelas aquelas que nos animam. Nisso, a simplicidade de meios com que, por vezes, o jornal A Bola me brinda é digna de elogio - as ilusões de um Benfica gigante, as (quase) contratações galácticas do Glorioso, as análises clarividentes (embora demasiado teóricas) do Freitas Lobo ou as crónicas de brilho e veneno da Leonor Pinhão são alimento do meu onirismo futebolístico.

Hoje, porém, o jornal que Vítor Serpa sabiamente dirige tornou o meu dia positivo não pelo acrescento dos sonhos, mas antes pela subtracção de vários pesadelos - um pesadelo literário, outro intelectual e ainda mais um de ressabiamento - e, sobretudo, de um enorme bocejo semanal. Foi a última vez que José António Lima escreveu naquelas páginas.

Obrigado a A Bola.

Thursday, June 18, 2009

Ally Cissokho: A foto que ninguém divulgou!


Por 300 mil euros queriam o quê? Dentes de verdade?

Friday, May 22, 2009

O Medo da orfandade

Confesso que estou já cansado das eleições do Sporting. Ou melhor, estou cansado de candidatos, putativos candidatos, pseudo-candidatos e candidatos a candidatos. Até parece que o Sporting é um clube plural, com muitas opções de valor para assumir a Presidência, com muita gente que se preocupa como futuro do clube. Como passa pela cabeça de alguém falar em afastamento entre o clube e os sócios e adeptos se praticamente todos eles manifestaram em algum jantar, numa reunião de negócios no Elefante Branco ou numa ida ao supermercado o interesse em se candidatarem à Presidência do Clube?


A patética novela das conversinhas às escondidas, dos almocinhos conspirativos, do apoio-a-100%-o-Sô-Doutor-com-três-nomes-mas-se-ele-não-se-candidatar-então-assumo-eu-a-candidatura-porque-também-tenho-três-nomes-e-sou-muito-sportinguista-e-o-sporting-não-pode-ficar-nas-mãos-de-gente-pouco-séria-e-sem-três-nomes-a-não-ser-que-apareça-outro-Sô-Soutor-que-também-seja-sério-e-também-tenha-três-nomes serve apenas para branquear uma realidade indesmentível: O Sporting é uma monarquia.


Vamos lá ver: Pessoalmente, o sistema monárquico não me chateia nada: É certinho, não traz surpresas imprevistas e se o descendente directo estiver com dúvidas se está preparado para subir ao trono, acena-se com 800 mil euros por ano para ver se é de ferro. O sucessor está definido dentro de uma linhagem e é preparado entre jogos de pólo, idas à manicure e MBA’s no estrangeiro para, um dia, ser ele a deixar o Paulo Bento sozinho contra o mundo enquanto, desde a sua cadeira de encosto reforçado e com costas 2 metros acima da sua cabeça, esfrega as suas mãos de contente por mais um 2º lugar no campeonato. E o povo gosta da monarquia. Não porque seja boa mas porque o povo ‘conhece’ quem ocupa o trono: Conheceu o rei deposto, e o rei antes dele que o pôs lá e que por sua vez já tinha sido posto por outro rei que tinha sido posto por outro rei que deu início à dinastia. Que consta que até era um tipo porreiro. E o sucessor ao trono aparece na televisão, é simpático, parece bem cheiroso. ‘Nós conhecemo-lo, não pode ser má pessoa, muito menos incompetente’. E Chega. No Sporting de hoje não são os programas ou as ideias que definem o futuro: É o medo da orfandade.


Amado de Freitas, Jorge Gonçalves e (em menor escala) Sousa Cintra ainda arrepiam o imaginário de qualquer sportinguista sem Alzheimer. O projecto Roquette (ainda que no início com Santana Lopes a dar a cara - outro conhecido, simpático e, por isso, nunca incompetente) representou, então, tudo o que os anteriores não tinham sido: Trouxe palavras de rigor, a ideia de um projecto que parecia fazer sentido liderado por pessoas ‘conhecidas’ cuja descendência dos fundadores do Sporting os colocava acima de qualquer suspeita ética e de competência. E, importante, permitia o regresso a umas origens de chapéu de coco e bengala de pega de prata. E todos se sentiram confortáveis e protegidos por gente bem-falante, com pedigree e nome na praça. A confiança actual na para-democrática ‘continuidade’ não está nos resultados financeiros ou desportivos, que não justificam qualquer tipo de entusiasmo. Nem no vigor do Sporting, cuja realidade para além de uma academia que produz talentos em série que a equipa principal não consegue capitalizar é mais difícil de compreender do que uma análise do Freitas Lobo sobre um contra-ataque. A continuidade apenas se justifica pelo medo da mudança e pelo peso que o Projecto Roquette ainda tem no imaginário dos sportinguistas mas já está soterrada num podre sistema de compadrios que não vai ser fácil limpar quando houver necessidade. Enquanto isso, do nosso lado, vamos ajudando a casa real a afincar os calcanhares no chão: protesta-se contra o poder dominante, grita-se em desacordo mas reza-se que a mudança nasça da continuidade. Camuflada de uma democracia que esconde a mesma coroa. Porque já os conhecemos.


PS. Apenas um concelho para o candidato ‘socialista’: Faz uma plástica que pareces o Eduardo Madeira. Isso lixa qualquer projecto à partida. Até os projectos do próprio Eduardo Madeira. Aquele abraço.

Monday, May 11, 2009

O meu Benfica

Como benfiquista que se preze, o Diego é óptimo – diria mesmo excelente – a dizer mal do próprio clube, a apontar o dedo às feridas, aos defeitos, aos podres, às desilusões, às figurinhas, às repetições dos erros, às incapacidades, à mediocridade e à impotência que, desde cerca de 1994 ou 95, vêm caracterizando este clube, em tempos Glorioso.
Ao longo desta época, o Diego tem-se mantido calado, observando, tirando notas, fazendo um intenso e discreto levantamento dos acontecimentos e, com muito esforço, tentando chegar a uma conclusão lógica, racional e sobretudo útil a quem nela quiser apoiar-se de modo a fazer o bem, a recuperar as forças e a reorganizar convenientemente – e à medida da actualidade – este clube, outrora Grande.
Findo o campeonato, e tendo como grande objectivo até ao final da temporada segurar um precioso, honrado, digno e mui honesto 3.º lugar, o Diego decide que é tempo de largar a sua laracha, inspirando-se em 29 anos a olhar os 11 marretas... enfim: 15 anos a olhar os 11 senhores; 14 anos a olhar os 11 marretas, pronto... desde lá de cima do terceiro anel.

O Neo-Benfica

É do domínio do público, em geral, e dos benfiquistas, em particular, que antes de Artur Jorge o grupo de jogadores que existiam ao serviço do Benfica era, por norma, digno de representar o clube; e que, depois de Artur Jorge, raramente de entre as centenas que compunham, todos os anos, o plantel encarnado se encontrava um nome que conseguisse preencher os requisitos mínimos para alinhar na primeira divisão nacional – não fora, durante uns tempos, o respeito institucional que o nome “Benfica” e os equipamentos vermelhos impunham e, estou seguro, as ruas da amargura teriam sido ainda mais profundas. Sim, fossem aquelas camisolas tricolores, como as do Estrela, e teríamos tido a oportunidade de ser campeões ao mesmo tempo que o Porto – eles na primeira, nós na segunda divisão.
Mas não é em Artur Jorge que a desgraça começa. Digamos que a tragédia tem origem no dia em que, habituados os benfiquistas ao destacado palanque de “maior clube português de todos os tempos e para toda a eternidade” surgiu, lá no Norte, um presidente, algures entre o visionário Alberto João Jardim e o homem honrado e de princípios que sempre foi Jesus Gil y Gil. Não estávamos prontos para tanto. Até então, a única coisa semelhante a “rivalidade”, cá na nação, era uma equipa às riscas que, de quatro em quatro anos, teimava em impedir-nos de chegar ao tetra-campeonato – coisa que os portistas repetiram, com insuportável facilidade, ontem, pela segunda vez na sua história. Fernando Martins, que “never saw it coming”, dirigia o clube e erigia a versão final (ainda que apenas provisoriamente definitiva) da Velha Catedral – aqui, “velha” lê-se com aquele significado pesado e notável que as grandes coisas velhas às vezes têm. Aquela tinha. Martins fechou o terceiro anel, mas não construiu muralhas em redor da sala de troféus. Com um país ainda à procura de um rumo, a redefinir as suas conexões políticas, as suas malhas de influências e, pelo meio, a pôr de pé uma nova e potente forma de poder – o autárquico -, o Benfica, opulentamente campeão incontestável e por decreto, deixou-se dormir e ultrapassar. Era o início de uma nova era e os benfiquistas continuavam a acreditar que, com a união do povo e a bênção de um deus benfiquistas, seríamos campeões 3 vezes em cada 4 anos, daqui até 2500, pelo menos. Teria de haver um presidente que, com visão de futuro, construísse um novo estádio só para albergar taças e medalhas.
E, lá por cima, começava a ser fabricada uma nova (velha, diga-se... no sentido que “velha” pode ter quando já é sobejamente conhecida) forma de ganhar. Chegou João Santos à Luz. E ainda ninguém dera pelo sucedido. Isso lá do Porto era só uma fase, como aquela da década de 30 em que ganharam alguns 4 campeonatos. Isso de serem campeões europeus foi puramente acidental. Isso de terem dois ou três craques de nível mundial não passou de sorte na ida ao mercado. Isso de nos levarem a melhor, consecutiva e, por vezes, pesadamente, nas Antas acontece aqpenas porque contra o Benfica todos os pequenos se agigantam...
Foram tempos de ilusões. Mas João Santos passou pelo pequeno purgatório com palmarés digno, fruto de uma herança recheada de bons jogadores, de uma tradição de vitórias ainda fresca, da facilidade que existia em chamar ao Benfica tanto os melhores treinadores da Europa como os maiores craques do Brasil, de Portugal e da Suécia. Foram anos de ilusões e também facilidades. Mas passaram depressa.
Chegou Jorge de Brito e, de entre os 6 ou 14 ou 120 ou lá quantos milhões nós somos, que eu nunca contei essa gente toda, alguns, porventura menos dotados de benfiquismo ou, talvez, com maior consciência das realidades, começaram a ter maus feelings – havia qualquer coisa que lhes dizia que... enfim, admitamo-lo... estávamos “mais fracos”. Houve quem questionasse: mais fracos?! E os outros reformulavam “menos fortes, pronto”. Admitamo-lo: por esta altura, estávamos frágeis. Débeis. À beira do precipício no Neo-Benfica. Mas continuávamos alegres – olhávamos para o nosso rival, para o verdadeiro, o das riquinhas esquisitas, o que não nos deixava ser tetra, e esse, o tal rival, não ganhava havia uma porrada de anos. Acabariam por ser 18, no total, e isso muito alegrou o espírito “verdadeiramente benfiquista”. Distraídos com o infame destino do rival, nem se deu por ela: o Porto ganhou mais campeonatos nesses anos do que em toda a sua história; apanhou o Sporting no número de títulos conquistados; não falhou uma única presença na Champions. Em suma, superou-nos. E nós nunca conseguimos admiti-lo. Dói admitir. Mas às vezes mais vale uma dor momentânea que se debela do que uma maleita para a vida toda. A verdade é esta: a nós, benfiquistas, resta-nos o Neo-Benfica e a memória do Benfica velho – “velho” como o velho avô, o velho pai, o velho amigo... aquela memória antiga, querida, sempre presente. Aquilo de que a gente mais gosta.

O Benfica que falha

Não é novidade e nem tem contestação possível: todos os anos o Benfica falha. Não é isso que está em causa em mais este notável parágrafo da futeblogosfera nacional. O que eu quero é tentar perceber o que é que falha no Benfica.
Olhando para os ditos rivais, nenhum deles falha. O Porto simplesmente porque cumpre os objectivos a que se propõe todas as épocas: ser campeão, passar aos oitavos-de-final da Liga dos Campeões e, se der tempo, ganhar a Taça de Portugal; o Sporting, porque se propõe a muito pouco – ganhar a Taça de Portugal, se ao Porto não lhe apetecer, e ficar à frente do Benfica.
Temos, portanto, que o primeiro e, digo eu, maior erro do Benfica é propor-se aos objectivos errados. Que me perdoem os benfiquistas mais puritanos, mas vejam a coisa nesta perspectiva: não é ridículo que se exija todo o santo ano a um treinador que seja – sem margem de erro – campeão num clube que, nos últimos 15 anos, ganhou o campeonato uma única vez? Que ganhou duas Taças de Portugal? Que ganhou (e inquinadamente) uma Taça da Liga? O problema deste clube, que ainda é grande mas que já não é um grande clube, é ainda não ter dado por isso que o tempo passou, os títulos foram ganhando pó e os outros, os que eram para ser ganhos, foram-no sim – mas por outro emblema. Não o do Glorioso – este epíteto mantém-se apenas por respeito àqueles que fizeram os grandes e gloriosos momentos da história do clube; hoje em dia, olhando o presente e o passado recente, só por manifesta boa-vontade e cegueira clubista se poder crer que o Benfica ainda tem alguma coisa de glorioso. Acordemos: não tem. É um clube esvaziado, desorientado, megalómano, crente e cheio de soberba. É aqui que o Benfica falha. E, se é a Vieira que se deve a “nova Catedral” e a recuperação do crédito (até ver...) do clube, também é a ele que se pode cobrar o Benfica campeão europeu, o título de maior clube no mundo, os 300 mil sócios apregoados e, sobretudo, um campeonato medíocre, uma taça (muitíssimo bem ganha, essa) e um Taça da Liga que faz mais pela nossa vergonha do que pelo nosso palmarés.

A solução para o Benfica

Olhando para o passado deste clube, que já foi enorme em tempos, e observando o crescimento e a nova grandeza do Porto, que nos tirou o lugar – que não era herança divina, desenganem-se -, há uma conclusão que me parece simples: as grandes conquistas começam no espírito de sacrifício, na abnegação para cumprir uma estratégia, abdicando do bem individual e das teimosias pessoais para atingir um bem comum e maior – no fundo, é uma espécie de sentido de Estado que nos leva a permanecer unidos e a lutar, com garra, com objectivos, com ambição e com confiança; mas também com noção das limitações – só conhecendo as nossas fraquezas poderemos tentar superá-las -, com apurado sentido da realidade, sem ilusões parolas, que apenas contribuem para nos toldar o entendimento, fazendo escapar o essencial: assim não vamos lá. Tão depressa, não ganhamos nem um campeonato nacional, quanto mais essa utopia da Liga dos Campeões.
A solução para o Benfica – que é solução universal – não passa por manter ou despedir treinadores, por contratar ou trocar de jogadores, por ter lá o Quim ou o Moreira, por vender o Di María ou contratar o Cristiano Ronaldo. A solução para o Benfica está na mudança da mentalidade. E isto demora muitos anos até se conseguir. Para consegui-lo, o primeiro passo é ter noção da nossa realidade presente. Só depois se pode começar a construir o futuro. Sendo o processo longo, sugiro que se comece já. Agora. Neste instante. Sem ilusões ou demagogias. Aceite-se que perdemos que nem uns brutos e que não sabemos reconhecer as derrotas. Emendemos este primeiro aspecto.
Eu quero que o presidente do Benfica faça história: que se chegue aos microfones e diga, com toda a seriedade, que “para o ano, prometemos muito trabalho, jogadores lutadores, um plantel com pés e cabeça, uma equipa unida e, se possível, ficar pelo menos no terceiro lugar sem nos borrarmos todos pelas pernas abaixo, com o Nacional nos calcanhares”. É só isto que eu quero. Que, pela primeira vez em 29 anos, eu não veja um presidente do Benfica fanfarrão e convencido, mas sim um homem sério, capaz e clarividente. Não me prometam que vão ser campeões já para o ano. Prometam-me que começam a trabalhar a sério ainda no que resta desta época. Sejam sérios.