O lado positivo
Depois dos 2 golos em Braga, o Benfica tem a consolação de saber que já não vai sofrer mais golos até ao fim do campeonato: Já chegou aos 7...
Porque a droga nunca fez mal a ninguém.
Depois dos 2 golos em Braga, o Benfica tem a consolação de saber que já não vai sofrer mais golos até ao fim do campeonato: Já chegou aos 7...
Num almoço domingueiro, daqueles que se esticam até bem depois da hora do lanche, dizia-me um familiar, pessoa ilustre do mundo da bola, tido na família como ‘não lagarto’, o que já lhe valeu peúgas brancas e lenços de pano no Natal, que o Sporting era ‘injustamente incompreendido’, apesar da sua política ser a mais realista dos 3 grandes e que estava a pagar, publicamente, pela sua seriedade e responsabilidade.
Digamo-lo com frontalidade: o homem até nem começou mal. Ao deparar-me com o título “Ser sportinguista é freudiano”, e pesando a ambiguidade da afirmação, fui tentado a pensar “Salve! O Sousa Tavares deixou o uísque!”. Não sei se deixou ou não. Mas desconfio que não.
Que delícia! É sem surpresa mas com grande regozijo que os benfiquistas assistem hoje àquilo a que os pobres usam chamar de “euforia esquizofrénica”. Não pretendo aqui corrigir os que o fazem, muito menos aconselhá-los a uma leitura atenta sobre a ciclotimia. A nomenclatura importa pouco nestas questões, o que interessa é mesmo a ideia.
O que eu queria dizer é coisa simples e não pretendo tirar muito tempo a quem lê. Hoje em dia, há muito que ler por aí e, quando se fala de bola, andamos todos a dizer o mesmo. Mas quanto a isso de o Benfica estar “muitíssimo bem”, “muito forte” ou mesmo “demolidor”, peço aos adeptos adversários que nos concedam o direito à felicidade: depois de tanto ano de mediocridade, uma pessoa vê-se na disposição de gostar, de festejar, de desfrutar destes momentos felizes. Porque, embora possam parecê-lo, os benfiquistas não são todos extremamente parvos. Existe uma diferença entre uma fezada depois de 3 vitórias em que se diz “isto, este ano é que é” e a constatação daquilo que é óbvio, claro e, sobretudo, entusiasmante. Quando se vêem adversários invariavelmente encostados às cordas, obrigados a recorrer à falta (às vezes, à violência) para travar o Benfica e a contar os minutos para que o jogo acabe antes da goleada, é invetitável uma pessoa – benfiquista ou não – concluir que “aqueles gajos estão a jogar que se fartam”.

O jogo de ontem, na Luz, deixou muitas coisas atravessadas. Nomeadamente, o golo do Vitória, na garganta do Jorge Jesus (e na minha, já agora); e os outros oito do Benfica, em cerca de 4 milhões de gargantas, engasgadas por esse país fora. Mas também deixou coisas escorreitas, direitinhas, claras.
Tem sido um início de época difícil de suportar. Já a pré-época foi o que foi... Uma pessoa quer falar de bola mas a conversa corta-se logo com um determinado “ah, então e aquilo... viste o Bolt?”, seguido da piscadela de olho compincha. "Se o vi? Nem deu tempo...". Benfiquista que é benfiquista sabe perfeitamente que com isto dos enguiços não se brinca... O melhor é não tocar no assunto. Fingir que não se passa nada. Um gajo sorri, anda com confiança. Mas o assunto fica só aqui entre nós, como numa irmandade secreta. “Então, tudo bem?”, sorrisinho, mais uma piscadela de olho, “tudo em ordem” e falamos das legislativas ou lá o que é isso. Diz que é democracia. Pero no lo creo. Que tal as férias e outros assuntos que ocupam as páginas finais do Record. Se se dá o caso azarado de alguém lançar um tímido “O Porto não está mau...”, haverá logo outro alguém que atalhará com um imponente “epá, e aquela treta em Albufeira...? diz que o Figo é que costuma ir para lá...” e a seguir, faz-se um arrependido silêncio. Mencionar a palavra “Figo” pode fazer com que se toque no assunto. E a gente não quer isso. Benfiquista que é benfiquista está ralado é com a Naide, que é lagarta e são-tomense mas pronto, a gente gosta dela na mesma... Nem há outro assunto.
- ‘Ãh? A branca? Mas qual branca?’, respondo-lhe eu, com uma linha (a subtileza esmagadora das palavras) de esperança que o homem me surpreendesse e tivesse ali algum boato para nos entreter.
- ‘Qual branca? Qual branca? Aquela que lhes passa pela cabeça, porra!’, respondeu, retirando a cabeça da mão para a poder abrir num gesto que subentendia esclarecimento.
- ‘Epá, mas de quem? Na sei nada disso!’, inquiro, cada vez mais interessado.
- ‘Porra atão na vês?’, disse, já direito atrás do balcão e a indicar a televisão com a cabeça. ‘Do Polga, do Peido Silva, do Vukcevic, do Abel quando joga e de outros quando calha. Achas normal que na façam um joguinho sem lhes parar o cérebro pelo menos uma vez?’
- ‘AaaH’, a linha de esperança de ter ali um boato saboroso era realmente fininha. ‘Essa branca! Ah, pois, não, na é normal’.
- ‘E se fosse só neste jogo, ainda se desculpava, mas na há jogo que não enterrem a sério. Se fores a ver, nesta época, os golos que temos sofrido foram quase só por falhas individuais nossas, por andarmos a dormir ou por desmazelo. E durante o jogo há mais uma série delas que mesmo que na matem, irritam que se farta e metem-nos o coração nas mãos.’
- ‘Já no ano passado o Polga, volta e meia, enterrava. Este ano na parece melhorar. E o Abel sempre teve problemas na ligação entre os neurónios, dá curto-circuito, sabes. Sobre um gajo a quem chamo Peido Silva, não falo. Agora, o Vuk, acho que tem desculpa.’
- ‘Qual desculpa, homem, qual desculpa?’, responde o Chaves, agitando as mãos no ar. Fiquei com um bocadinho de medo, confesso. ‘Primeiro desvia as atenções da punhada que o italiano deu no levezinho e ainda ganha um amarelo, por parvo. Depois, arma-se em Ronaldo pra mostrar a peitaça à malta. Eu quero lá ver as maminhas do Vukcevic! Quero é que jogue á bola e acabe o jogo’.
- ‘Epá, mas é a maneira de o homem jogar. É emotivo, dedica-se àquilo e às vezes perde as estribeiras. Mas depois é por ter este carácter que luta tanto e que empurra a equipa para a frente. É o reverso da medalha…’
- ‘Ora porra’. E o pano encardido de limpar os copos já batia no balcão. ‘Para gajos burros a jogar à bola já na bastam os 2 laterais direitos? Atão o homem na é capaz de manter a fibra toda e pensar um bocadinho ao mesmo tempo? Já na digo pensar muito. Só o suficiente para na tirar a camisola quando já tem um amarelo. A partir de agora vou passar os jogos a olhar prás mãos deles para ver se têm todos os polegares oponíveis… Olha que já desconfio!’.
- ‘Olha, eu se fosse jogador da bola era capaz de fazer o mesmo que o Vuk. Batiam num colega meu, levavam logo na boca. A não ser que fosse o Peido Silva. Aí, juntava-me ao outro pra bater no Peido Silva. Se eu conseguisse marcar um golo importante num jogo em que estivéssemos a ser roubados, super pressionados e com toda a gente nas semanas anteriores a falar mal de nós, também era capaz de reagir de uma maneira emotiva e esquecer que já tinha amarelo’, respondi-lhe eu quando... TRASH!!
- ‘Pois, mas isso és tu que nem és capaz de agarrar numa merda duma mini! Já é a 3ª que deixas cair, porra. E esta vais limpá-la tu que já tou farto. Toma o pano, anda. E podes usar os pés, que já vi que os teus polegares são como os dos jogadores do Sporting...'
A melhor forma de ilustrar o patético jogo que o Sporting fez hoje contra aqueles holandeses sofríveis foi o golo: No último minuto dos descontos, por auto-golo e com meia assistência do Rui Patrício. Isto sim, faz-me corar de vergonha.
Se o jogo de ontem serviu para alguma coisa, foi para me empurrar para os centros comerciais para comprar os presentes. Passo pelo supermercado e compro umas postas de bacalhau, daquele a sério, grossinho e que se separa em lascas depois de cozido. Com uma couve, umas batatinhas e uns farripos de cebola por cima, fica daqui, ó.
Os dias bons nem sempre são feitos de coisas grandiosas, de acontecimentos de estrondo, de pedidos de casamento, nascimentos de filhos, vitórias em campeonatos ou vendas de Lucho González. Por vezes, são coisas singelas aquelas que nos animam. Nisso, a simplicidade de meios com que, por vezes, o jornal A Bola me brinda é digna de elogio - as ilusões de um Benfica gigante, as (quase) contratações galácticas do Glorioso, as análises clarividentes (embora demasiado teóricas) do Freitas Lobo ou as crónicas de brilho e veneno da Leonor Pinhão são alimento do meu onirismo futebolístico.

Confesso que estou já cansado das eleições do Sporting. Ou melhor, estou cansado de candidatos, putativos candidatos, pseudo-candidatos e candidatos a candidatos. Até parece que o Sporting é um clube plural, com muitas opções de valor para assumir a Presidência, com muita gente que se preocupa como futuro do clube. Como passa pela cabeça de alguém falar em afastamento entre o clube e os sócios e adeptos se praticamente todos eles manifestaram em algum jantar, numa reunião de negócios no Elefante Branco ou numa ida ao supermercado o interesse em se candidatarem à Presidência do Clube?
A patética novela das conversinhas às escondidas, dos almocinhos conspirativos, do apoio-a-100%-o-Sô-Doutor-com-três-nomes-mas-se-ele-não-se-candidatar-então-assumo-eu-a-candidatura-porque-também-tenho-três-nomes-e-sou-muito-sportinguista-e-o-sporting-não-pode-ficar-nas-mãos-de-gente-pouco-séria-e-sem-três-nomes-a-não-ser-que-apareça-outro-Sô-Soutor-que-também-seja-sério-e-também-tenha-três-nomes serve apenas para branquear uma realidade indesmentível: O Sporting é uma monarquia.
Vamos lá ver: Pessoalmente, o sistema monárquico não me chateia nada: É certinho, não traz surpresas imprevistas e se o descendente directo estiver com dúvidas se está preparado para subir ao trono, acena-se com 800 mil euros por ano para ver se é de ferro. O sucessor está definido dentro de uma linhagem e é preparado entre jogos de pólo, idas à manicure e MBA’s no estrangeiro para, um dia, ser ele a deixar o Paulo Bento sozinho contra o mundo enquanto, desde a sua cadeira de encosto reforçado e com costas
Amado de Freitas, Jorge Gonçalves e (em menor escala) Sousa Cintra ainda arrepiam o imaginário de qualquer sportinguista sem Alzheimer. O projecto Roquette (ainda que no início com Santana Lopes a dar a cara - outro conhecido, simpático e, por isso, nunca incompetente) representou, então, tudo o que os anteriores não tinham sido: Trouxe palavras de rigor, a ideia de um projecto que parecia fazer sentido liderado por pessoas ‘conhecidas’ cuja descendência dos fundadores do Sporting os colocava acima de qualquer suspeita ética e de competência. E, importante, permitia o regresso a umas origens de chapéu de coco e bengala de pega de prata. E todos se sentiram confortáveis e protegidos por gente bem-falante, com pedigree e nome na praça. A confiança actual na para-democrática ‘continuidade’ não está nos resultados financeiros ou desportivos, que não justificam qualquer tipo de entusiasmo. Nem no vigor do Sporting, cuja realidade para além de uma academia que produz talentos em série que a equipa principal não consegue capitalizar é mais difícil de compreender do que uma análise do Freitas Lobo sobre um contra-ataque. A continuidade apenas se justifica pelo medo da mudança e pelo peso que o Projecto Roquette ainda tem no imaginário dos sportinguistas mas já está soterrada num podre sistema de compadrios que não vai ser fácil limpar quando houver necessidade. Enquanto isso, do nosso lado, vamos ajudando a casa real a afincar os calcanhares no chão: protesta-se contra o poder dominante, grita-se em desacordo mas reza-se que a mudança nasça da continuidade. Camuflada de uma democracia que esconde a mesma coroa. Porque já os conhecemos.
PS. Apenas um concelho para o candidato ‘socialista’: Faz uma plástica que pareces o Eduardo Madeira. Isso lixa qualquer projecto à partida. Até os projectos do próprio Eduardo Madeira. Aquele abraço.
Como benfiquista que se preze, o Diego é óptimo – diria mesmo excelente – a dizer mal do próprio clube, a apontar o dedo às feridas, aos defeitos, aos podres, às desilusões, às figurinhas, às repetições dos erros, às incapacidades, à mediocridade e à impotência que, desde cerca de 1994 ou 95, vêm caracterizando este clube, em tempos Glorioso.