Thursday, March 06, 2008

As derrotas morais

O Porto perdeu. Ingloriamente. Fez o possível para ganhar, jogou com a raça que se lhe reconhece. Mostrou ser melhor equipa, ter mais futebol, mas a bola não entrou quando necessário.

Perdeu e poderia ser bem pior se o árbitro sancionasse a defesa de Helton fora da área.

Ganhou quem fez o “futebol cínico”, expressão que os comentadores agora utilizam para classificar as equipas que se fecham atrás e só atacam pela certa, em incursões localizadas e programadas. O futebol “Tomahawk”.

Quem viu o Porto jogar não se pode sentir insatisfeito. Mostrou combatividade, espírito de luta, de equipa e uma concentração a que faltou somente a bola entrar.

Não chegou.

Na Europa, quem não concretiza as hipóteses de que dispõem não ganha e o Porto falhou três delas.

No entanto foi uma derrota moral porque Helton deveria ter sido expulso e jogando com 9 dificilmente manteríamos o resultado. Fucile foi mal expulso? Talvez. Mas foi a decisão arbitral com que tivemos de viver e não acredito que possamos assacar ao árbitro a derrota.

É neste contexto que se torna curioso o ocasional do futebol, geralmente associado às arbitragens. Como se um livro de regras tivesse avaliações diferentes, esperamos permissividade de um árbitro inglês, intransigência teutónica, rigor técnico italiano e…a condescendência equilibradora dos portugueses. As arbitragens são conotadas à origem do homem do apito. Daí a surpresa do comentador televisivo ao “excesso de intervenção” do árbitro que ontem esteve no Dragão. Era inglês, portanto, não devia assinalar tantas faltas.

Volto a questão. As regras não são as mesmas? Então para que diferenciar “estilos”? Arbitrar é cumprir o livro! Só.

Leva-me isso a caracterização que é feita às arbitragens e a forma como são avaliadas. Começo pelos comentadores e os termos. Primeiro é o desempenho. Avaliam a arbitragem como se de um exuberante artista se tratasse. Porque? Um árbitro, como o nome sugere não desenvolve uma performance artística. Um árbitro julga. Avalia e decide sobre ocorrências e faz cumprir as regras.

Como em toda a actividade humana existem erros e omissões. Então a avaliação de um árbitro será a diferença entre as decisões correctas e incorrectas, sendo que, das incorrectas há dois factores a identificar: do conjunto das incorrecções, quais e quantas influenciam decisivamente um resultado e se as decisões incorrectas tiveram lugar fruto de condições para além do controle do árbitro (posição em campo, clima, simulações etc.).

O que nunca poderemos induzir é que o erro por si só ditou o resultado: nunca poderemos saber e são duas discussões distintas e que é necessário, de uma vez por todas separar sob pena de continuarmos eternamente a arranjar desculpabilizações forçadas para os nossos fracassos.

O futebol é um vivência intensa mas momentânea que passa do agora para a memória e de lá só sai para sublimação e ritualização, como um cerimonial mítico.

O máximo que podemos exigir é que os erros, quando repetidos ad nauseum deveriam obrigar a uma ponderação sobre a capacidade deste ou daquele dirigir qualquer jogo.

Contextualizando: a derrota do Porto, não reflectindo o que se passou no jogo.

O árbitro, apesar de globalmente decidir de forma positiva, teve duas decisões que poderiam modificar o rumo do encontro: a defesa de Helton e a expulsão de Fucile. São erros graves que importa avaliar. Até porque tais erros numa final da Champions, por exemplo, dariam direito a que o árbitro fosse emparedado em betão.

Utilizando o mesmo critério para o clássico, entendo que a vitimização já me chateia. A única razão que assiste ao SCP é a “tontice” da nomeação (a não ser que queiram já começar com a conversa de que o futebol está podre e que os benfiquistas dão pequenas águias de ouro aos árbitros e arranjam uns casapianos ou pneus especiais para entreter os árbitros antes dos jogos).

Contextualizando: o empate no clássico reflectiu o que se passou no jogo.

O árbitro, apesar de globalmente decidir de forma positiva teve quatro decisões que poderiam modificar o rumo do encontro: a entrada de Katsouranis sobre J. Moutinho (sim, já sei que vão dizer que eu persigo o rapaz! Mas não tenho culpa de ele acertar em tudo o que se mexe! E mais do que o lance, a limpeza mediática da falta é de bradar aos céus!), a expulsão de Nelson, o falso canto que deu origem ao golo do Benfica e o penalti sobre Simon. São erros muito graves que importa avaliar. Até porque são recorrentes e deveriam impedir este árbitro de apitar.

Como consolo ao Sporting deixo estas palavras consoladoras:

"Obrigas-me fazer de uma Obra antiga uma nova... da parte de quem deve por todos ser julgado, julgar ele mesmo os outros, querer mudar a língua de um velho e conduzir à infância o mundo já envelhecido. Qual, de facto, o douto e mesmo o indouto que, desde que tiver nas mãos um exemplar, depois de o haver percorrido apenas uma vez, vendo que se acha em desacordo com o que está habituado a ler, não se ponha imediatamente a clamar que eu sou um sacrílego, um falsário, porque terei tido a audácia de acrescentar, substituir, corrigir alguma coisa nos antigos livros? (Meclamitans esse sacrilegum qui audeam aliquid in verteribus libris addere, mutare, corrigere). Um duplo motivo me consola desta acusação. O primeiro é que vós, que sois o soberano pontífice, me ordenais que o faça; o segundo é que a verdade não poderia existir em coisas que divergem, mesmo quando tivessem elas por si a aprovação dos maus".

Obras de São Jerónimo, edição dos Beneditinos, 1693, t. It. Col. 1425

Explico: São Jerónimo foi o tradutor da Vulgata, o texto bíblico original tal qual o conhecemos nos nossos dias mais coisa menos coisa. Os seus críticos acusam-no de vários tipos de adulteração (ordem dos textos, “adaptações” diversas para coincidir com as necessidades políticas do Concilio de Trento, etc.).

Vinhas

5 Comments:

At 4:56 AM, Blogger Férenc Meszaros said...

This comment has been removed by the author.

 
At 5:02 AM, Blogger Férenc Meszaros said...

'As regras não são as mesmas?'

Caro Vinhas: Lendo o teu comentário apercebi-me que o que eu vejo na tv deve ser praí futebol gaélico...

 
At 9:40 AM, Blogger vinhas said...

Pois, deve ser. Ontem voces andaram pelos Caminhos de Santiago e não houve druida que vos salvasse.

 
At 4:10 PM, Blogger Unknown said...

Onde é que anda o outro? Pelas minhas contas, já lá vão 49 dias desde o último post...

 
At 4:22 PM, Blogger Diego Armés said...

Estou a ganhar fôlego...

 

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